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Boletim Especial n. 44 - 20/01/2021



No Boletim n. 44, Laura Moutinho (USP) relata os desdobramentos no meio acadêmico estadunidense do movimento Black Lives Matter, através das hashtags criadas pelo STEM, sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática, que paralisou em junho de 2020 o mercado editorial acadêmico. A autora aponta que a discussão racial no meio científico reposiciona a ciência como entidade capaz de impactar nos debates travados na sociedade, produzindo novas subjetividades; e reforça a importância da interseccionalidade do debate racial às questões de gênero, uma vez que há no meio acadêmico a sub-representação das mulheres, especialmente, as não brancas.

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#ShutDownAcademia: o movimento antirracista no mercado editorial


Por Laura Moutinho

Foto: Campanha do mercado editorial estadunidense: Researchers around the world prepare to #ShutDownSTEM and ‘Strike For Black Lives’, em junho de 2020. Disponível em: www.shutdownstem.com. Acesso em: 20/01/2021.

O mercado editorial estadunidense, que move milhões, parou por um dia no início de junho. O gesto de reflexão e autocrítica ecoava os impressionantes desdobramentos do Black Lives Matter, movimento que voltou a ganhar fôlego após George Floyd, um homem negro, ser assassinado por asfixia por dois policiais brancos em 25 de maio de 2020.

A revista Nature, que possui métricas impressionantes – resultado de uma estrutura iniciada em 1869 que a permite ter um volume por mês e um número por semana – publicou em seu editorial que iria aderir ao #ShutDownAcademia também identificado por #ShutDownSTEM e/ou #Strike4BlackLives. Essas são as hashtags criadas pelo STEM, sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A proposta do movimento era que todo o mercado editorial acadêmico interrompesse suas publicações por um dia para refletir e planejar ações antirracistas nesse âmbito.

O editorial da Nature explicita no título sua posição “Note from the editors: Nature joins #ShutDownSTEM”, seguindo um processo de revisão de seus padrões, que inclui o que se convenciona chamar de excelência acadêmica e mérito. A revista se reconhece como uma das instituições brancas produtoras de bias racial, responsável por injustiças e apagamentos que devem ser corrigidos. Explicitamente o editorial fala da necessidade de “amplificação de vozes marginalizadas”.

O subtítulo também chama atenção: “We will delay publication of the journal, and spend the day planning how to help eradicate anti-Black racism in academia and STEM”. O foco é o racismo sistêmico, especialmente contra os negros. Nem a linguagem da Nature, nem o #shutdownstem trazem uma narrativa interseccional. A iniciativa, entretanto, foi articulada com o particles for Justice[1] e Vanguard STEM[2]. A imagem que convocava a comunidade acadêmica à greve traz, por sua vez, uma predominância de mulheres negras e mestiças, entre as quais uma com os cabelos cobertos por véu, uma cadeirante e outra com perna mecânica[3].

Na véspera da paralisação, mais de 5 mil cientistas já tinham aderido ao movimento, que incluiu gestos de solidariedade de associações científicas e a suspensão de aulas e reuniões. Em realidade, a Nature escreveu dois editoriais a respeito. Prometeu ainda produzir um dossiê, organizado por um editor convidado para discutir o racismo sistêmico nas pesquisas e nos processos de desenvolvimento de projetos científicos e nas publicações. Essa é uma iniciativa que inclui voltar o olhar para o que a própria revista tem feito no campo acadêmico.

Isso é muito. Isso é pouco. Esse é o receio do movimento: a ampla e impressionante mobilização pode não significar nada sem ações concretas. O #ShutDownSTEM sabe e convoca a academia (e não apenas a estadunidense) a trabalhar em termos de educação, ação e solução (healing) das desigualdades nesse campo (STEM), com foco especial na opressão estrutural. De fato, a revista vem produzindo artigos que refletem sobre racismo em diferentes áreas do conhecimento, outros sobre a sub-representação das mulheres na ciência (especialmente as que não são brancas), bem como tem veiculado estudos sobre o efeito da pandemia do coronavírus na “população de cor” (people of colour).

Esse movimento de solidariedade e reflexividade destaca pontos que merecem nossa reflexão ao recolocar o papel da ciência na (e o que de fato esta vem fazendo para) a sociedade: pensamentos, palavras, pesquisas produzem novas formas de conhecimento, espalham-se na mídia de muitas maneiras, criam legislação, produzem novas subjetividades. Um dos questionamentos interessantes diz respeito ao que STEM vem produzindo. O movimento torna visível como isso afeta a população e vem também criando uma tecnologia que armou (weaponized) a sociedade contra a população negra. 

A American Anthropological Association também aderiu ao #ShutDownAcademia #ShutDownSTEM. As intenções e o posicionamento público seguiram o que foi exposto anteriormente em relação a Nature e outras associações. Também a triple-A firmou compromisso público de rever suas estruturas de concepção e ação e promover maior equidades, inclusão, acessibilidade e diversidade[4]. Critérios de justiça (como equidade e acessibilidade) aparecem entrelaçados com formas de representação e ação (inclusão e diversidade) para os BIPOC (sigla em inglês para negros, indígenas e “pessoas de cor”).

As repercussões do Black Lives Matter são visíveis no Brasil. A ABA, a ANPOCS, a SBS, entre outras associações, têm promovidos reflexões e ampliado a participação de pessoas negras, indígenas e com deficiência em suas comissões, procurando mudar suas antigas estruturas de funcionamento. De diferentes modos, a acadêmica vem sendo pressionada a rever seus currículos e reconhecer injustiças, apagamentos e estruturas de privilégios. Há um visível reposicionamento de autores/as e uma tão fascinante quanto importante (re)construção de estruturas conceituais. Destaca-se o esforço de manejar uma epistemologia poética e articulada a uma escrita com os sentidos (Tosold, 2020; Pisani, 2020). Boa parte da academia brasileira está sendo incitada a reconhecer textos e autoras, mas também a redimensionar, como fez Zethu Matebeni (2017) em relação às ativistas lésbicas negras na África do Sul, o quanto essas pessoas deram de suas vidas à produção do conhecimento. Destacam-se no Brasil nesse processo o trabalho sobre as obras de Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez[5]. A “sensibilidade pública elevada” da área de relações raciais ficou evidente em levantamento realizado recentemente (Barreto et al 2020). A antropologia tem um desafio particular nesse cenário, como tentei formular em reflexão anterior (Moutinho, 2014).

E o que dizer do mercado de periódicos da área de ciências sociais nesse processo?[6] Primeiramente, é preciso refletir sobre sua estrutura. São periódicos mais jovens. A Revista de Antropologia/USP é a mais antiga da área[7], tendo sido criada em 1953 (inicialmente como parte de duas associações científicas a ABA e a SBS). Além disso, a maioria dos periódicos de ciências sociais tem publicação semestral. As que possuem mais estrutura publicam de três números (Revista de Antropologia, Cadernos Pagu, RBCS, Mana, Horizontes Antropológicos, Anuário Antropológico) a quatro por ano (Revista Dados). Algumas adotaram recentemente, a partir da publicação continuada, um volume por ano (caso da Vibrant e da Revista de História/USP). Estrutura diferente tem, por exemplo, da Cadernos de Saúde Pública, que publica 12 números por ano e alguns suplementos eventualmente (em 2020 foram três nesse formato). A divulgação científica vem sendo incrementada. Mais recentemente, páginas foram e vêm sendo criadas no Twitter, Instagram, Facebook e falas relacionadas aos artigos e entrevistas têm sido amplificadas com podcasts, lives e pressrelease, o que vem aumentando enormemente a divulgação dos artigos, resenhas e entrevistas publicados nesses periódicos.

Além do Black Lives Matter, episódios de crimes hediondos, como o assassinado de João Alberto Freitas, trouxeram a questão do racismo, em especial do racismo estrutural para a ordem do dia. Mas como lidar com o cotidiano do racismo? Se os periódicos estão seguindo processo similar ao estadunidense de reflexividade, procurando identificar seus papéis na (re)produção da desigualdade e do racismo e a repensar suas estruturas organizacionais, não sabemos ao certo. Isso não está documentado. Poder-se-ia dizer que a maior parte dos periódicos basicamente tenta sobreviver. O que isso tem a ver com a reprodução da desigualdade racial, que também se assenta no processo de (re)produção do conhecimento da área? Rigorosamente nada. Essa, que é uma verdade sobretudo depois dos cortes do CNPq às revistas científicas, não pode ocultar que também nossa produção se assenta numa desigual estrutura de gênero, região e raça que informa a estrutura, igualmente desigual, de reconhecimento acadêmico. Não se trata de dizer que esses marcadores sociais da diferença são importantes na construção da desigualdade. Trata-se de entender, em nível local e geopolítico, os mecanismos complexos que eles operam. O fato das autoras e autores do país privilegiarem em suas referências bibliográficas quem publica no hemisfério norte, é apenas o primeiro ponto de uma reflexão ampla que precisamos enfrentar.

Laura Moutinho, é professora Associada (Livre-Docente) do Departamento de Antropologia e do PPGAS, ambos da USP. É também bolsista Produtividade do CNPq.

Notas:

1. Mais informações em: https://www.particlesforjustice.org/

2. Mais informações em: https://www.vanguardstem.com/

3. Sobre representações da deficiência na chave da diferença e interseccionalidade e na produção acadêmica, consultar Pedro Lopes (2020).

4. Ver: https://www.americananthro.org/shutdownsteam.aspx

5. Ver Rios e Lima (2020) e Ratts (2007)

6. Ver também Moutinho et al. (2020)

7. Peixoto e Simões (2003)

Referências:

BARRETO, Paula; RIOS, Flavia; NEVES, Paulo; SANTOS, Dyane. A produção das ciências sociais sobre as relações raciais no Brasil entre 2012 e 2019. In:Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais - BIB, v. 94, pp. 1-35, 2020. Disponível em: http://www.anpocs.com/index.php/bib-pt/bib-94 . Acesso em: 20/01/2021.

LOPES, Pedro. Deficiência na cabeça: percursos entre diferença, síndrome de Down e a perspectiva antropológica. 2020. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-30072020-125953/pt-br.php. Acesso em: 20/01/2021.

MATEBENI, Zethu. 2017. Perspectivas do Sul sobre relações de gênero e sexualidades: uma intervenção queer. In:Revista de Antropologia, vol. 60, n. 3, pp. 26-44. Disponível em: https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2017.141826. Acesso em: 20/01/2021

MOUTINHO, Laura. Diferenças e desigualdades negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas recentes. In:Cadernos Pagu, n.42, pp. 201-248, 2014. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0104-8333201400420201. Acesso em: 20/01/2021.

MOUTINHO, Laura et al. Precisamos falar sobre racismo e desigualdade social na academia e no campo editorial brasileiros. Revista de Antropologia (São Paulo), v. 63, p. e174716, 2020. https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2020.174716.

PEIXOTO, Fernanda; SIMÕES, Júlio Assis. A Revista de Antropologia e as ciências sociais em São Paulo: notas sobre uma cena e alguns debates. In:Revista de Antropologia, v. 46, n.2, pp. 383-409, 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012003000200009. Acesso em: 20/01/2021.

PISANI, Marília. Quando a filosofia se torna semente: viagem através de mundo artefactuais e (im)prováveis encontros. In:Revista Ideação, vol. 42, n. 1, pp. 197-232, 2020. Disponível em: http://dx.doi.org/10.13102/ideac.v1i42.5479. Acesso em: 20/01/2021.

RATTS, Alecsandro. Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial; Instituto Kuanza, 2007.

RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (orgs.). Gonzalez, Lélia. Por um feminismo Afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

TOSOLD, Léa. Por uma vida sem barragens: corpos, território e o papel da autodeterminação na desnaturalização da violência. In:Revista de Antropologia, vol. 63, n. 3, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2020.178182. Acesso em: 20/01/2021.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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